Quem tem carência aí levanta o mouse

Por Graça Taguti*

Ihh, pelo visto está assim de gente cheinha de “dentes nos olhos”. Doida pra devorar nem sabe bem o quê. Pois é, quem mandou nos asfixiarem com  toneladas de informações diárias, que mais nos deixam vesgos, neuróticos e  adrenalínicos que sábios.

Uma série de pesquisadores da atualidade concentra-se na filosofia das sensações, em aspectos cognitivos e dissociações no aprendizado, nas síndromes de déficit de atenção crescente e por aí vai.

O que se sabe é que nossa voracidade e ânsia por correr atrás do tempo são maiores que boca de hipopótamo gigante bocejando. Já pensou?

A gente nem entende direito o porquê, mas sai desejando tudo que vê pela frente. E como não há dinheiro nem braços pra dar conta desse desvario, as carências chegam em profusão. Atrevidas e intrometidas. Avassaladoras, se instalam bem no meio das nossas querências, deixando-nos ainda mais famintos do que já somos. Hidrocefálicos digitais. Ui!

Síndrome dos Mortos-Vivos

O curioso é que a carência é tanta que se compraz talvez com séries televisivas e games curiosos, que desafiam a imortalidade. Somos zumbis just now.  Patéticos, anêmicos e desengonçados marionetes do além, com insaciável sede macabra e sanguinária de viver ad aeternum. Resident Evil, Walking Dead, despontam como  pequenas mostras dessa sofreguidão e demandas inquestionáveis de passar a perna na tal da morte. Definitivamente.

E que tal um kit para enfrentar um apocalipse zumbi?

Síndrome dos Buracos Múltiplos

É demais a pressão sinestésica, psicológica e social que nos assola hoje. Por isso, nosso pobre coração e mente dilacerada, reivindicam, em dupla, serviços de tapa-buracos. Ou seja, simbólicos calmantes temporários, acalentadores de demandas mil. Vamos conhecer alguns. Pra começar: você tem sede de quê? De uma pessoa para dormir de conchinha? Alguém pra te dar um tapa na cara?

Jackie Samuel, uma americana de 29 anos, encontrou um jeito singular de garantir o pão de cada dia: ela é uma uma “Cuddler Professional” (numa tradução livre, “chamegadora profissional“). Sem mais delongas,  ela  cobra para dormir de “conchinha” com pessoas supersolitárias. Jackie decidiu abraçar, dormir e “ninar” pessoas por dinheiro, visando bancar seus custos universitários. Ganha por volta de R$ 500 por dia (cobra US$ 60 a hora), e “dorme” (sem sexo)  com até 30 pessoas por semana, incluindo mulheres, aposentados, veteranos de guerra, ou seja, lá quem estiver precisando de aconchego.

Outra: um homem, Maneesh Sethi,  contratou uma pessoa  via craigslist para  dar um tapa na cara dele quando ele se distrai na Internet, gerando prejuízos para a  sua produtividade.

A empresa que oferece avós para alugar.

 

Aluguel de avó é uma empresa real no Texas, Virgínia. Praticamente funciona como um serviço de babá. A empresa disponibiliza mulheres mais velhas com experiência com crianças para prestar cuidados em casa para “crianças de todas as idades” carentes de um colo assim.

Bom, já percebemos que  tem carência que não acaba maise a lista de demandas é pra lá de quilométrica.

Por um lado, conseguimos detectar ou inferir ao menos alguns dos motivos  que norteiam  essa avalanche de “céleres exigências” que se espalham feito vírus pelos indivíduos desse planeta.

O tema, estamos cientes,  desperta muita curiosidade e  fome de mais informação e de exemplos, que aliás não faltam.

A gula é tanta que agora, por exemplo, quem esta rosnando bem alto é meu estômago. Ele, coitado, clama faz tempo por um modesto sanduíche de queijo, que seja. Carentinho ele também, não? Então com licença, que eu vou à luta.

Fontes: yahoo.com; digital drops e entrecoisas

Graça Taguti – Quase neurocientista pela UFRJ, jornalista, publicitária, professora e palestrante. Mestre em Novas Tecnologias da Comunicação  e Cultura , pela UERJ. Amante do novo, da aceleração e  dos sujeitos mutantes.

2 Comentários

  • Óscar Curros 29 / 11 / 2012

    Quem escreveu este artigo está muito ciente das suas próprias carências. Tanto, que me chamou para comentá-lo. Acho que esse autoconhecimento é o primeiro passo para pensarmos como abordar a questão. Hoje estive numa aula de yoga na qual falamos de fazer menos coisas, apenas as que sejam relevantes e necessárias para a nossa vida, e controlar os desejos. Talvez por meio do autoconhecimento e do autocontrole possamos focar mais nos relacionamentos que nos preenchem e apagar um pouco de tanta carência assim.

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    • Graça Taguti 29 / 11 / 2012

      Muito pertinente seu comentário, Óscar Curros, a gente vive brincando de esconde-esconde com a gente mesmo e “comendo gato por lebre” como reza o ditado. Em vez de beijo, um sorvetão, em vez de um livro, profusão de games, em vez de um sorriso, embriaguez a rodo…. sei lá… mas não desejo muito conduzir este assunto por vielas psicológicas. A princípio o que sobressai nas pesquisas é o número infinito de curiosos “serviços” disponíveis nos dias atuais. Talvez no próximo post eu continue sublinhando esta temática, who knows?. Obrigada pelo retorno;)

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