Seu corpo na prateleira: Quem dá mais?

Por Graça Taguti*


Pera lá. Vocês já estão pensando no buchicho do momento que é a venda da Virgindade, pela brasileirinha de Floripa . Espanto, que nada. Estas transações-biológico-sexuais-comerciais já existem faz tempo.

Afinal, é muito lícito precisar de uma grana caprichada pra sustentar os estudos, um carro novo, um apê, dos sonhos etc. Alguém discorda? Ok, mas antes de tocar o dedo neste assunto ou nesta cavidade, temos outras questões correlacionadas a comentar.

Hoje como sabemos e experimentamos em nosso brand  sensations cotidiano, tudo é uma questão de Ter, não mais de SER. Quanto mais eu tenho, adquiro, posso trocar por algo mais novo ainda, oh yeah.  Madonna já concordaria  com a afirmação, vide seu megassucesso Like a Virgin.

A coisa de garantir o ineditismo, a singularidade já nos diferencia e muito, uffa! , desta massa ignara, informe e pseudossocial que nos  asfixia, certo.  A  sensação de tornar-se uma pessoa customizada, única, é semelhante à de possuir, bem ao alcance dos seus dedos, um personal orgasm, here,  there and everywhere.

Chegar à frente  dos outros, agarrar tendências , inovações e etc., é a bola da vez. O surpreendente e superantenado site trendwatching.com  volta é meia fornece pitacos de que como sair em disparada rumo à aquisição  de novidades. Ou melhor de newisms. O quê?! Confira clicando nesse link

Agora, turbilhonados por esta louca ansiedade que nos enche de dentes os olhos, demandamos ainda mais, mais e mais. Ir mais longe do que sermos meros prosumers interativos, declarados pela web 2.0, com as diversas plataformas digitais que nos cercam.

Ah, vorazmente queremos mais. Definitivamente. Estamos atrás de sermos exclusivamente Presumers. Hein? Não entendi. Vamos lá. Este perfil de personagem-pessoa, quer – mais que tudo na vida –  possuir algo antes de todos os outros.

Os Presumers correm ávidos,  atrás de pré-lançamentos em áreas diversas do consumo, dando mil cambalhotas  na acirrada disputa, pra poderem ostentar o badge , a meritória medalha da hipersupermega exclusividade. Veja mais clicando nesse link:

Outra surpresa quentinha do forno: MOOLTA: um site para você desafiar seus amigos a fazerem coisas absurdas por dinheiro ou likes.

Perfeito mano. “Tudo vale a pena quando a coragem não é pequena! “(Frase, aliás, que jamais seria proferida pelo  poeta máster  Fernando Pessoa)

Como essa história funciona? O site Youpix explica um pouco. Segundo a autora do post, Bia Granja, “ O Moolta é tipo um Kickstarter só que para desafios totalmente absurdos. Você pode desafiar alguém ou ser desafiado em alguma tarefa tipo “Comer um tênis”, “Lamber a axila da amiga”, “Dançar Gangnam Style no meio da rua”, “Se esconder dentro de uma lata de lixo até alguém abri-la”, “Decorar um cocô de cachorro na rua como um cupcake” e por aí vai.

As possibilidades são infinitas e dependem da sua criatividade.  Alguém lança um desafio, propõe um pagamento (pode ser dinheiro ou likes no Facebook) e dá um prazo pra que a tarefa seja concluída. Se o desafio atingir a cota mínima de apoiadores dentro do prazo, a pessoa tem que fazer a parada.

Você tem amigos que tão precisando de dinheiro? Taí uma excelente oportunidade de fazê-los passar ridículo. Cola aqui pra criar o seu. o/ Dá um confere no vídeo:

Bom e aproveitando a deixa “de precisar de dinheiro” voltamos a tal da virgindade negociada (ou negociável?) apregoada no título deste post.

Mais fatos. Pedro Camargo, consultor e estudioso também deste assunto, fornece dados recentes. Notícias da virgindade vendida pela internet:

“ A estudante de 21 anos conhecida como Noëlle está disposta a vender sua virgindade usando um site de uma agência holandesa de acompanhantes. A estudante já teria recebido uma oferta de 7.500 euros (R$ 17,5 mil).”

“A jovem dos EUA tem a meta de conseguir US$ 1 milhão com o leilão de sua própria virgindade. Ela diz que o dinheiro será usado para pagar seus estudos.”

E por fim…

“O subprocurador-Geral da República, João Pedro de Saboia Bandeira de Mello, em ofício encaminhado nesta sexta-feira ao Ministério das Relações Exteriores, solicitou que seja investigada a venda da virgindade da brasileira Catarina Miglioni, por R$ 1,5 milhão, para um cidadão japonês, pela internet. Bandeira de Mello sugere ao Ministério que providencie o contato com as autoridades envolvidas na operação internacional que pode ser configurada como “tráfico de pessoas”.

E pra concluir esse artigo, com chave de ouro (ou será de grifa) apresentamos outra novidade pra você:

Indiano descobre creme feminino que dá sensação de virgindade:

Siga o vídeo, aproveite e exclame sem reservas  “uiuiui”! (depois de tanto “oioioi” da novela Av Brasil, né.)

Graça Taguti – Quase neurocientista pela UFRJ, jornalista, publicitária, professora e palestrante. Mestre em Novas Tecnologias da Comunicação  e Cultura , pela UERJ. Amante do novo, da aceleração e  dos sujeitos mutantes.

 

18 Comentários

  • Óscar Curros 31 / 10 / 2012

    Graça, tudo isso tem muito a ver também com a tendência da Internet a potencializar os exageros: quem tem os maiores seios, o maior bíceps, o maior…

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    • Graça Taguti 31 / 10 / 2012

      Sim, Óscar, vivemos no hiperbólico pois não temos mais certezas se somos vistos;) O exagero, tem a ver com a voracidade, as ânsias por possuir o “novo” , né?? Como uma enlouquecida corrida de cavalos. “Precisamos chegar na frente , sempre”. Até no que tange à compra de uma virgindade, né?…

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  • Mirna Tonus 31 / 10 / 2012

    Graça,
    adorei o texto. De uma forma divertida, você nos faz pensar a que ponto as pessoas podem chegar para estar à frente. Acredito que isso sempre existiu, mas, agora, parece que está potencializado pelo acesso às novidades a um simples clique.
    Abs.

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    • Graça Taguti 31 / 10 / 2012

      Obrigada pelo comentário, querida Mirna. Como não nos “enxergamos mais” frente à tsunami expositiva” em mil redes sociais etc, precisamos nos assegurar que nossa “ganância” ainda está em primeiro lugar. E tudo então vira um grande negócio, sem considerações morais a priori: vender virgindade, cometer bizzarrices a esmo, etc.;) Bjs.

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  • robson carvalho turcato 31 / 10 / 2012

    Muito bom o post. Falava há alguns dias com meu amigo, tb RP, sobre a ausência de relacionamento nas redes de relacionamento. Hj são mais redes de exposição. Não há controvérsia alguma. Há uma audiência quase passiva acerca daquilo que se expõe.
    Não sou contrário o movimento da exposição, tampouco a venda do corpo (quer seja sexual ou no melhor estilo Jackass), enfim… Me incomoda muito mais a pseudo relação entre o ator do cena e a audiência.
    Onde foram parar os “porquês”? Por que minha virgindade valeria US$ 1.000.000? Por que eu faria uma cena do Jackass no MOOLTA? Seria a busca extremada da diferenciação?
    Se sim, isso não é um paradoxo? Um movimento quase massivo pela auto-exposição em busca da diferenciação?
    Seu post me fez questionar… Digerindo.

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    • Graça Taguti 31 / 10 / 2012

      Olá Robson! Bastante interessantes seus questionamentos. Penso que se encontra aqui, neste texto, um viés hiperbólico extremismo paroxista, Os porquês, realmente, diluíram-se no éter das desimportâncias… De fato, presumo que a intensa e pleonástica necessidade de nos percebermos EXISTINDO, como coisas, objetos reificados, talvez, seres-zumbi desvitalizados, leva-nos a ansiar pelos extremos atitudinais. Necessitamos muito ser notados stalkeados, trollados, para ganhar nesta digitalidade tentacular que nos asfixia um débil contorno de rosto-anêmico… Acho que você lançou a isca certa para o peixe que desejava pescar. Parafraseandosua observação, um trecho da mesma, “Um movimento quase massivo pela auto-exposição em busca da diferenciação?” Desconfio que sim! Obrigada pela riqueza de ilações em seu comentário;))

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  • Luiz Santos 31 / 10 / 2012

    Graça, adoro seu jeito de pensar. E ele me leva agora a pensar assim: nossa ansiedade está ficando proporcional às nossas interrrogações, sendo que estas interrogações não são mais sobre fim do mundo, doença incurável, alienígenas. São simplesmente sobre o futuro de nossas cabeças, onde elas estarão na próxima onda.
    Eu tendo quase sempre a achar que a queda na aquisição de cultura, da leitura que ajuda a pensar com um certo discernimento, que ajuda a pessoa a se entender e entender o mundo, essa queda é a base de toda essa ansiedade, essa alteração de valores fundamentais, essa sensacão de vazio que nos incita a qualquer procura. detesto a generalização, mas aqui vai. pronto, falei.

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    • Graça Taguti 31 / 10 / 2012

      Luiz querido, esta ansiedade, acelerada, drogadicta é corrosiva. Pois é irrefreável.
      E como humanos ainda, embora metaforicamente lobotomizados pela implacável enxurrada informacional, tencionamos saber aonde estamos. E o que somos… O corpo não nos basta mais. Nossa espinha dorsal psíquica fraturou-se em múltiplos fragmentos. Assim, temos que correr atrás de nós próprios, atrás de nossa própria sombra… Sem, é claro, jamais conseguir alcançá-la! Obrigada pela sua ótima contribuição;) Bjs

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  • Marcos Masini 31 / 10 / 2012

    Graça…

    Esses dias tuitei algo sobre o TER e o SER. Aliás, vez ou outra, utilizo-me do tema para refletir e convidar às pessoas a refletirem sobre o que somos, para onde estamos indo ou no que nos tornamos.

    Mas, infelizmente, fico quase sempre no vácuo. Ninguém parece querer falar ou pensar sobre isso. Fingem não ver. Como se: “Isso não é comigo”. Mas esquecem que, como formadores de opinião e pensadores, devem disseminar a informação.

    Daqui a pouco será muito comum aluno quebrar a escola e espancar o professor por que não Há qualidade no ensino. Como o Óscar bem colocou, o superlativo está na moda. Antes poucos dominavam os meio de comunicação, agora, que muita gente pode falar, eu preciso fazer algo MUITO GRANDE para o outro me enxergar no meio de tantos.

    É certo que muitos talentos apareceram por aí, mas, a meu ver, o bizarro ganha força, visibilidade e fãs. E como disse Thomas Baekdal, escritor, especialista em social media, no texto “O enigma do retrocesso social”, isso nada mais é do que a recompensa do vazio.

    E muita gente busca preencher o vazio com mais vazio ainda. Até quando viveremos apenas de luz? O próprio tempo dirá.

    Eu sempre questiono muito em que e se o ser humano está mesmo evoluindo.

    Abraços.

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    • Graça Taguti 31 / 10 / 2012

      Perfeito. Marcos. Embalagens vazias. Ou egos inflados como os da propaganda dirigida aos sujeitos que não consomem a cerveja skol 360º. . As profícuas discussões, meu amigo, perderam-se no vácuo, pois vivemos de aparências, significantes, personas. Nosso conteúdos, nossos contornos de “dentro” ,nossos intimistas túneis de reflexão, ponderação, nossos intuitivos e abençoados insights, aonde foram parar? No VAZIO da desumanização crescente? … Estamos nos destituindo de nossa pretensa humanidade, via o assoberbante fluxo de ofertas, nichos horizontalizados de produtos , serviços e marcas quase gêmeas. etc. Há um texto muito perspicaz, da Paula Sibília no qual a pesquisadora elenca um trajeto, abrangendo : do homem psicológico ao homem tecnológico – e todas as lacunas decorrentes da nossa pós-organicidade…Vamos papear mais, Marcos . E obrigada por suas ponderações;)

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  • Ramon Fernandes 01 / 11 / 2012

    Oi Graça, vi uma palestra sua no evento da Mega Brasil este ano, foi demais. Sua energia é única!

    Sou o amigo do Robson, citado acima, e trago uma contribuição de um livro que li que achei realmente muito bom para esta questão sobre como estamos (sub)utilizando os novos meios.

    O livro A Cultura da Participação, de Clay Shirky, explora esta questão ao tratar do excedente cognitivo, que é o tempo que investimos, ou deixamos de investir, em atividades que não sejam trabalho, estudo ou lazer. Ele aborda diversos exemplos que vão desde a criação de memes inicialmente “inúteis” tipo o “Keep Calm and …” até a criação de movimentos sociais bem estruturados com foco em problemas coletivos.

    Voltando ao tema desta discussão, é fato que está em evidência estes usos banais do excedente cognitivo. Somos metralhados diariamente com enormes quantidades de memes, posts, compartilhamentos e outras informações que não tem validade nenhuma para nosso dia-a-dia. Mas, como contra-ponto, estão surgindo diversas novas formas de coletividades com foco em desenvolver ações produtivas, de naturezas diversas (aprendizagem coletiva, preservação ambiental, cobrança de mudanças políticas), que se utilizam das plataformas sociais. Estes sim são bons exemplos de como um meio pode ser usado de forma social para produção de valor.

    Vejo que a dualidade da relação entre estes dois comportamentos é parte do momento em que estamos, ainda descobrindo as potencialidades de ser sujeito nos meios de comunicação. O vídeo abaixo, nos 39 segundos, ilustra a forma como vejo nosso comportamento hoje, pequenos grupos, pseudo-alinhados, que trilham seus caminhos, mas que tendem a encontrar a sincronia.

    http://www.youtube.com/watch?v=_ygSpAmPnCQ&noredirect=1

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    • Graça Taguti 01 / 11 / 2012

      Primeiramente, Ramon, agradeço a relevância do seu comentário, dica do livro, assim como a belíssima metáfora do vídeo. Há uma indiscutível sincronia, ondas rítmicas que se assemelham ao DNA em cadeias cromossomiais e também a peixes, joias, etc. Estas múltiplas possibilidades interpretativas, nos levam a pensar em uma coletividade que, ao mesmo tempo em que teima em continuar antropocêntrica, onanista social digital, conforme costumo mencionar, ela já se abre, via a horizontalidade das redes sociais ao espalhamento de nós, ao crowdsourcing, co-working, crowdfunding. É extremamente curioso e significativo este paralelismo, esta simultaneidade comportamental. Sim, Ramon, eu creio na força reativa e mutacional dos grupos, das tribos, na ficha limpa, na primavera árabe. Vivemos uma era de fluxos paradoxais, muito estimulante e produtiva, sim. Grande abraço, e fiquei feliz por saber que curtiu minha palestra;))

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  • renha 01 / 11 / 2012

    Bia Granja e Graça Taguti. A primeira questiona o grande diilema humano: ter ou ser? – eis a questão. . A segunda, quase neurocientista pela UFRJ, aprofunda esssa e muitas outras questões relevantes do nosso mundinho pós Freudiano.Será que Freud ainda explica tudo ? No meio tem ainda Pedro Camargo com outras esquisitices do homem (ou seria da mulher?). Siga o endereço abaixo. Vale a pena conferir o trabalho destes autores. Ele é dez.

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    • Graça Taguti 01 / 11 / 2012

      Renha querido, valeu pelo comentário;)) Vamos deixar o Freud descansar;) Bjs!

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  • renha 01 / 11 / 2012

    quase neurocientista e absolutamente genial !

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    • Graça Taguti 02 / 11 / 2012

      Renha querido, eu cursei Bioquímica na UFRJ , até o último ano e estava me especializando em Neuroquímica. Saí do curso ao final de quatro anos, pois decidi entrar para a faculdade de Comunicação Social. Dava aulas inclusive de química orgânica , em curso de pre-vestibular;))

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  • Solange E. Uhieda 06 / 11 / 2012

    Penso eu que a net é uma caixa de Pandora; foi aberta, agora…segura peão!
    Aonde isso vai dar? Não sei…cabe aos de bom senso, continuar na sua trilha e tentar “evangelizar” os demais…
    Ótimo post Graça!! bjo gde!

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    • Graça Taguti 06 / 11 / 2012

      Solange, obrigada pelo comentário, minha flor! Pois é: a aflição do estilhaçamento narcísico abre as portas pra todo tipo de “certificados de validade humana” não é? Absorver as vantagens das novas tecnologias e sua aplicabilidade na vida cotidiana é diferente do que ser manipulado por elas. Realmente, querida, a caixa de pandora foi reaberta nos novos tempos, disseminando obscuridades como, por exemplo, a “deep web”. Mas a esperança e nossa proatividade permanecem, felizmente.) Grande beijo!!

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