Qual é sua relação com novidades?

* Por Graça Taguti

Pode confessar sua mais nova  tara: você é um neófilo?!

Hei! Não precisa ficar com cara de quem foi flagrado em ato  secreto ou despudorado nos recantos da sua intimidade.

Não há, nos dias frenéticos da atualidade, alguém que fuja a esta denominação no imenso rol que envolve o mundo das aberrações (cujo termo científico é parafilia).

Definitivamente você é um neófilo. Ou então, no mínimo   a sua antítese: um neófobo.

Mas calma. Muita calma nesta hora.

Não precisa ficar ruborizado como uma beterraba, apenas  porque descobrimos, o seu incontrolável desejo de desvendar “o desconhecido”. A sua atração incontrolável por “novidades”.

Respirou? Ótimo. Vamos lá, então.  Estamos falando da Neofilia.

Em interessante artigo postado na revista Galileu, seu autor, Rafael Tonon, aborda as recentes pesquisas desenvolvidas nesta área.

Destaca, entre elas,  uma das conclusões da jornalista e escritora de comportamento americana Winifred Gallagher em seu recente livro New: Understanding Our Need for Novelty and Change (Novo, Entendendo Nossa Necessidade de Novidade e Mudança, ainda sem tradução no Brasil).

Afinal , vivemos numa época acelerada, turbilhonada por informações, criações tecnológicas, modismos de todo o tipo. E o mais importante: uma época em que a sede pelo novo torna tudo ou quase tudo que nos rodeia como descartável.  Coisas, objetos, acessórios , pessoas. E por aí vai.

Como alardeava o velho ditado pregado nos bondes do século passado. “ Tudo na vida é passageiro, menos o o cobrador  e o motorneiro” (aquele que dirige o bonde).

A gente hoje se cansa cada vez mais rapidamente  de tudo: locais, roupas, e até de hábitos arraigados.

Troca de gênero, caráter, assume sexualidades múltiplas, sempre ansiando,pela busca e o  encontro do prazer definitivo.

A pesquisadora Maria Cristina Franco Ferraz, em sua obra o Homo Deletabilis, focaliza, dentre outras temáticas a incapacidade humana de acumular no cérebro toda esta avalanche de informações à que estamos submetidos cotidianamente.   Não somos efetivamente uma Amazon, empresa online, que todos conhecem,   capaz de armazenas zilhões de livros CDs e o que mais possa  lhe interessar.

Ainda atualmente somos asfixiados por  limites –  por mais que tentemos nos ciborguizar. Mas ainda somos humanos, de alguma forma.

A neurociência vem se dedicando também a estas manifestações atitudinais, que revelam nossa crescente atração pelas novidades. Uma curiosidade frenética e descomunal toma conta da gente e contamos, lógico, com a internet, como nossa aliada, e com o Dr. Google, que nos faculta buscas de todo gênero.

Eis que  atuamos, na maior parte do nosso dia, como o Homo Digitalis, ansiosos por agarrar tudo que é lançado nas mais variadas áreas da cultura, consumo, tecnologias, dentre outras.

Simultaneamente, esta hiperaceleração que nos acomete nos tempos atuais, não permite que nos aprofundemos no que quer que seja. Pois como frisa o filósofo alemão , Christoph Turcke que discorre em recente livro sobre a filosofia das sensações, não suportamos viver sem nos entregarmos às experiências múltiplas. Como viciados,  adictos que não conseguem mais sobreviver sem drogas, como heroína ou crack.

Necessitamos nos excitar com  novidades sucessivas. Talvez para nos percebermos vivos, sensíveis, capazes de nos comover com toda a parafernália de efeitos 3D, 4D, realidades aumentadas, mistas ou alternativas, destinadas a nos propiciar avalanches emocionais indescritíveis, em telas de cinema ou de TV.

Mas ninguém poderá negar que este arsenal de aplicativos e efeitos neotecnológicos nos traz apenas pseudovivências. Ou estímulos artificiais nos quais mergulhamos às cegas que , de algum modo, embotam nossas inatas competências de sentir e de nos emocionar naturalmente, sem vinculações a fascinantes e hipnóticos até aparatos externos.

Segundo a autora do livro, a neofilia se baseia no que ela chama de emoções do conhecimento: a surpresa, a curiosidade e o interesse pelas coisas do mundo. “Assim como o pensamento, elas nos impulsionam a aprender”, diz.

A autora reitera que esta insaciável curiosidade também inclui aspectos negativos.  Afirma que temos hoje 4 vezes mais dados em e-mails, tweets, música, vídeos e mídia tradicional do que há 30 anos — E por isso é indispensável que consigamos , de algum modo,  frear, controlar nossa compulsão desmedida por qualquer tipo de novidade.

Aprender a selecionar, deletar  o que não acrescenta nada à nossa mente, buscar sedimentar em nós conhecimento de qualidade e propulsor de mudanças é o que se torna essencial.

“É preciso filtrar as coisas, senão nem as 24 horas do dia serão suficientes para tantas novidades”, ressalta a americana. Ela acredita que devemos continuar a ser atraídos e surpreendidos pelo mundo, sempre. Mas que é preciso se focar naqueles novos pensamentos, sons, cheiros e sentimentos que, de alguma maneira, realmente se conectam com as diferenças de  cada pessoa.

“Deixe de ser um mero buscador do novo para se tornar conhecedor dele”, reitera Gallagher .Em suma: filtre sua sede por novidade e beba somente o que há de melhor.

Paralelamente  as modinhas se sucedem, despontam à nossa volta,  sempre apoiadas por sua viralização na internet.

Por exemplo, você sabe o que é planking? O termo surgiu na Austrália e ficou super popular em 2011 por  designar uma brincadeira em que a pessoa se deita com o corpo esticado e os braços colados ao corpo, como se estivesse em cima de uma prancha ou tábua (“plank”, em inglês). Mas só tem graça se a brincadeira for feita em lugares inusitados – vale uma moto, uma cabine telefônica, placas, etc.

A primeira década dos anos 2000 foi marcada por várias tribos urbanas e grupos que dividiam os mesmos ideais ou os mesmos gostos. Quer exemplos?

Emo/From UK: olhos pintados e franjas escorridas. Se antes as brigas eram punks contra metaleiros e hippies contra yuppies agora são todos contra os emos. Os From UK foram uma versão pokemón evoluída, com cabelos espetados, roupas mais coloridas e a busca incessante pela popularidade na internet.

Agora os  Nerds: Se nos anos 80 e 90 os nerds apanhavam na escola, agora eles mandam no mundo e faturam milhões antes mesmo dos 30 anos criando softwares mirabolantes ou tendo ideias bestas mas que ninguém teve antes.

E os Hipsters ? Lançadores de tendências na música e na moda, os clubbers niilistas e podem ter acabado com a cultura ocidental como acusou a revista Adbusters.

E por aí vai. Aproveite e nos diga, na sua opinião,  qual é a última novidade do pedaço?  😉
Aguardamos você.


QUE É A SUA RELAÇÃO COM NOVIDADES?

NEÓFOBOS> São avessos às novidades e mudanças. Querem fazer tudo da forma que já conhecem. Preferem consertar uma televisão antiga a se render a um modelo novo. Essas pessoas são raras. Mas, se você é uma delas, seja mais flexível e aprenda a ter um olhar mais encantado com o mundo ao seu redor.

NEÓFILOS > Gostam de novidades, mas não são aficionados por elas. Sabem do lançamento de um novo modelo de celular, por exemplo, mas esperam que o mercado fale mais sobre ele antes de comprá-lo. Assim, conseguem encontrar um equilíbrio. Se você é neófilo, continue assim.

NEOFÍLICOS > São viciados em novidades e tecnologia. Os típicos early adopters, que encomendam gadgets antes que cheguem ao mercado. Mas perdem rapidamente o interesse pelas coisas. Esses precisam aprender a se controlar.

Graça Taguti – Quase neurocientista pela UFRJ, jornalista, publicitária, professora e palestrante. Mestre em Novas Tecnologias da Comunicação  e Cultura , pela UERJ. Amante do novo, da aceleração e  dos sujeitos mutantes.

2 Comentários

  • Sérgio Luiz Oliveira 08 / 08 / 2012

    Gostei do seu artigo sobre neófilos. Eu me considero um desligado do computador. Fiquei a semana anterior sem verificar e mail, ou entrar no Facebook, mas estou desde às 11:30 h plugado e não consigo desligar. Um Beijo. Até a próxima.

    Sérgio Macau

    Responder

    • Graça Taguti 13 / 08 / 2012

      Meu muito prezado Macau;) Obrigada por seu comentário =D Está vendo como a vida dá voltas?… De repente você se plugou. E então ficou fissurado;)) E ainda nem somos ciborgues, já pensou? Abraços analógicos!!

      Responder


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