Responda rápido: quantas cabeças você possui?

Por Graça Taguti: *

Estamos habitando  – ou levitando? caso já nos tenhamos transformado em  irrevogáveis avatares , seres cíbridos ou espectrais, deste surpreendente século XXI –   a Era do Instantâneo, do Flash-vivencial-Mob. Do #partiuimprevistos.

Não temos tempo a perder, como diz a música.  E por isso  roemos todas as nossas unhas, cultivamos poderosas  gastrites como plantas regadas nos “vasos do stress” e parecemos então com  aqueles animais domésticos endoidecidos,  gatos, cachorros, rodando em círculos e tentando morder a própria cauda – que, é claro, nunca conseguimos.

Por que não conseguimos?  O tempo, ou a apreensão da ideia que temos dele,  se tornou nosso maior algoz, capataz, fustigando nossa pretensa produtividade, com ameaças de areia movediça , que escorre por dentro de ampulhetas frenéticas.

Que tal você   prosseguir refletindo sobre a interpelação inicial deste artigo:

Afinal quantas cabeças você tem?

   – Essa indagação, basta por enquanto, pois poderíamos questionar,  simultaneamente,  quantos braços você agrega em seu corpo –

Naturalmente você intui que uma única  e frágil cabeça, contendo não se sabe quantos zilhões de  igualmente frágeis  e famigerados neurônios, não dá conta das intermitentes avalanches informacionais  que nos assolam em nosso cotidiano.

Certo. A era da informação – sinônimo da era digital –  sucedeu a era industrial, e originou-se da chegada do computador – nos EUA, a partir dos anos 60, no Brasil, no início dos anos 90.

Acontece que a dita  informação vinculava-se  ao consumidor, ainda inocente, moldável, sujeito aos ditames publicitários dos massmedia, comunicação de um para todos, como ordenava a senhora dona TV.

O consumidor, coitadinho,  era passivo, encantado pela magia da tela, voyeur dos comandos imperativos da sedução inexcedível do Faça, Compre, Conquiste,  demandada pela hierática tela, encaixada em móveis de madeira, que atualmente consideraríamos como algo vintage, cool, fashion,  retrô.

Seja como eu! – bradava o belo astro ou a  impecável  atriz  dos comerciais televisivos ,  musa com cadeira cativa  no imaginário social do pós –guerra, até seguramente o final dos anos 80 e inicio de noventa, quando outro demoníaco aparelhinho eletrônico, o celular, chegava para nos enfeitiçar com outra  tela, pequenina  mas… Libertária!

Sim, consumidor, palmas para você! A partir deste momento, e mesmo um pouco antes dos anos 90,  em que você já manipulava videogames, você principia a se sentir proprietário do seu nariz, no controle dos seus desejos e vontades – e inegavelmente, com passaporte carimbado do  seu direito de ir-e-vir.

Em decorrência,  com o advento do compartilhamento na web (isso por volta do comecinho dos anos 2000)  você está autorizado, pela pós-modernidade, a interagir na web.

Como resultado,  no momento em que começa a produzir informação/conteúdo também você ganha um  novo troféu! O prosumeirismo. Eba!

Bom, torcemos para que você não seja  a encarnação de uma figura mítica, como a Hidra de sete cabeças, que, de tão venenosa matava os homens apenas com o seu hálito; e se alguém chegasse perto dela enquanto a tenebrosa hidra estava dormindo, apenas de cheirar o seu rastro a pessoa já morria em terrível tormento.

A Hidra ostentava corpo de dragãoe nove cabeças de serpente (algumas versões falam em sete cabeças e outras em números muito maiores) e que podiam se regenerar.

Na mitologia grega, podemos também citar outro ente horrendo: o Cérbero ou Cerberus (em grego, ΚέρβεροςKerberos = “demónio do poço“) um monstruoso cão de múltiplas cabeças e cobras ao redor do pescoço que guardava a entrada do Hades –  o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.

Ui,  que meda. #As pessoaspira sentencia o meme no twitter…

Assim, hoje, por mais que a gente tente estar here-there-and-everywhere, grudados em todas as telas dos devices que nos rodeiam, notebooks, ultrabooks, tablets, ipods, blackberries, celulares, etc, , ainda não alcançamos a máxima qualidade desejada, própria e exclusiva de uma  divindade.

Somos mutantes, sim,  mas lamentavelmente ainda não somos ubíquos ( competência atribuída a Deus de presencializar-se em todos os lugares ao mesmo tempo!) Frustração, né…

Prossigamos: à era da informação sucedeu a era do conhecimento, que, vamos combinar, é informação digerida, fecundada, alquimizada.

Mas, cá entre nós, quanto dessa quase asfixiante tsunami informacional conseguimos metamorfosear em conhecimento? Nossa cabeça explode, concorda, mano?

Tudo nos circula incessante e crescentemente.

Humildemente rendidos,  revelamos que  é  impossível FAVORITAR, selecionar,o que nos trará conhecimento e agregará valor  real às nossas aptidões profissionais, por exemplo.

Para o pensador francês Dominique Wolton “A tecnologia avança mais rápido do que a comunicação” e aí, não tem jeito,  o futuro sempre nos passa a perna, a cada milimetricamente noção de “presente” que nos acometa.

Aliás, qual é o significado de  presente, na atualidade. E o futuro, #jáé? O que você acha?

Deixamos esta indagação para a sua cabeça, ou seja, para todas as eventuais cabeças  que ornamentam regiamente com o  o seu new style,  seu pobre pescoço…

A propósito, você já se submeteu a  upgrades orgânicos?

Implementou alguma prótese em seu corpo, indivíduo pós-humano , ou se preferir, transumano?!

Pode responder sem susto.  E sem pressa.

A confissão ficará apenas entre nós. Pobres mortais… que ainda somos.

Ah, agora, como não podemos  perder mais tempo, vou lhe confiar um segredo:  Eu possuo 3 cabeças.  Para quê? Descubra. O desafio está lançado.

Graça Taguti – Quase neurocientista pela UFRJ, jornalista, publicitária, professora e palestrante. Mestre em Novas Tecnologias da Comunicação  e Cultura , pela UERJ. Amante do novo, da aceleração e  dos sujeitos mutantes e escrever no Ceschini sobre cibercultura.

3 Comentários

  • Andrea 11 / 07 / 2012

    Muito boa matéria! Parabéns!

    Responder

    • marcia 11 / 07 / 2012

      Olá Andrea,

      Obrigada por ler o post e comentar.
      Gostaria de sugerir um tema?
      Abraços

      Responder

    • Graça Taguti 11 / 07 / 2012

      Obrigada!!

      Responder


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