Homo Faber, Homo Ludens, Homo Digitalis e a supremacia da pele das novas tecnologias comunicacionais

Por Graça Taguti*

O corpo que nos interessa neste artigo, desde que o homem é homem, produzindo, brincando e se digitalizando através dos séculos, experimentando suas reações e acoplamentos aos estímulos externos – seja ao congestionamento dos ambientes urbanos, como às ofertas de miríades de gadgets que agora avassalam o século XXI, pertence a um sujeito, que pode ou não possuir um rosto, mas nos faculta revisitá-lo em uma retrospectiva histórica, recortada naturalmente nas descontinuidades temporais, comuns a várias épocas.

A partir deste momento, ensaiaremos algumas pinceladas históricas, segundo as quais o corpo, nosso protagonista, suas alterações fisiológicas, adaptações e contínuas transformações vêm se descortinando. Mudanças, por sinal, que culminam hoje em uma ciborguização gradual, conforme abordaremos mais adiante. Referimo-nos a um corpo-mais-que-composto, uma carne-verbo-digitalizada, ambicionando sua conjugação social no modo mais-que-perfeito.

Morrer, hoje, saiu de moda

Não sou este agregado de membros que é chamado corpo humano
René Descartes

O corpo contemporâneo simplesmente não quer morrer. Visa à imortalidade, perseguindo, com freqüência, vias de voluntária descorporificação. Estaríamos aqui já anunciando os contornos de um corpo-descorpo, decidido a descartar suas anacrônicas e coercitivas vestes de carne, como comenta David Le Breton, em sua obra Adeus ao Corpo. Na introdução do livro de título O corpo no Rascunho, Le Breton assegura que na atualidade o corpo encontra-se totalmente esvaziado de suas funções outrora substanciais. Para embasar seus argumentos, no decorrer da obra, o autor garante que a razão da existência do sujeito hoje se atrela às reais possibilidades de acoplamentos, com peças e acessórios que potencializam suas competências e desempenhos. Mas reitera fervorosamente que o corpo por si só é um rascunho: destituído de qualquer valor (LE BRETON, 2003, p. 13).

Para o autor, nós habitamos um corpo velho, sem a mínima utilidade, porém dotado de um metabolismo ainda pulsante, mas já cumpliciado com as pervasivas nanotecnologias com que sucessivamente se mescla.

Afinal, como sentencia o teórico, nosso corpo hoje seria um estorvo, uma insuportável carga a ser transportada ao longo da vida – como uma gigantesca e impiedosa pedra, carregada no dorso do pobre Sísifo, de acordo com o mito – ou um favorável substrato, um condutor físico para a consolidação dos escrutínios na tecnociência e para a experimentação, talvez, de novos caminhos eróticos? Hoje, sem duvida, o que nos comove nesse corpo, que ousamos designá-lo de metacorpo,o são suas vinculações com os estímulos provenientes da externalidade. Já, claro, bem posteriores aos frêmitos ardorosos de algumas décadas causados pelas delícias do cibersexo, experimentado diante de interfaces limitantes, que de qualquer forma, alcunhamos de “nossos preservativos sexuais digitais”

Hoje expomos um corpo atualizado, móvel, gerundivo, se pudéssemos conjugá-lo processualmente em verbo – sem passado, presente ou futuro definidos – que reage e interage com apelos de todo gênero, valendo-se exclusivamente de sua própria pele, seu seminal vestuário atual – cuja sensorialidade e rendição aos emuladores digitais vigentes é notória, além de crescente.

Trata-se de um prazer incontestável e adequado às nossas contemporâneas demandas. Certamente não haverá nada mais nirvânico do que termos hoje à nossa inteira disposição eficientíssimos gadgets assessores, nossos incansáveis – e sempre solícitos – tutores high tech – que executam tudo por nós. Esmiuçando memórias remotas, poderemos recordar cenas da mais tenra infância em que tudo nos era dado à boca e às mãos, sem o menor esforço. Quedávamos desta forma, num plácido e maravilhoso imobilismo, apenas fruindo dos mimos ofertados com dengo e delicadeza. Pois nossas vontades, como num passe de mágica, eram prontamente atendidas. Concretizavam-se e nos “caíam no colo” suavemente.

Como agora, a propósito, crianças grandes que somos, embora fantasiadas de compenetrados (porém dissimuladamente voluntariosos) adultos. Entretidos, manuseando minúsculas telas, acessando a um só toque, quase imperceptível, jogos, notícias, sites na internet, GPS, salas de chat, o fluxo dos investimentos, as cotações das moedas internacionais, horóscopo, tudo enfim, sem restrições, bem ao alcance – de apenas um único e inaudível clique, nas telas redentoras de palmtops ou blackberries.

Como parceiros perfeitos, esses polivalentes aparatos tecnológicos, apresentam-se wireless (sem fios), ou seja, livres, leves e soltos, seguindo, compassivos, nossos movimentos e rumos, estando conosco o tempo todo, satisfeitos e cúmplices, nessa vida instituidamente móvel.

Sem dúvida, podemos inferir que essas fascinantes maquininhas estarão progressivamente rivalizando com nossas sonhadas e idealizadas namoradas ou namorados. Como neogueixas-digitais, ou fiéis escravos pós-modernos, estes gadgets atendem complacentemente a quaisquer comandos nossos, aceitando cegamente nossas manias e manhas, sem jamais “discutir a relação”, como de praxe acontece entre parceiros reais.

O Homem Faber, rendeu-se e à mescla promissora do homo ludens com os artefatos singulares do Homo digitalis.

 Graça Taguti – Quase neurocientista pela UFRJ, jornalista, publicitária, professora e palestrante. Mestre em Novas Tecnologias da Comunicação  e Cultura , pela UERJ. Amante do novo, da aceleração e  dos sujeitos mutantes.

3 Comentários

  • Andréa 11 / 07 / 2012

    Olá Graça,
    Poque você não submete um dos seus artigos para a revista ciências e cognição. São de dois amigos meus e a sua proposta é parecida com o que um deles trabalha. Entre no google e coloque ciências e cognição, entre no site e veja as regras e o trabalh deles. Você vai gostar. Beijos

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    • Graça Taguti 11 / 07 / 2012

      Obrigada, Andrea;) Agora que vi seu post;) Vou procurá-los sim! Beijos!

      Responder


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