Inovação: Alma Caleidoscópica, espírito camaleônico e metas mutantes

Por Graça Taguti*

Por muitas gerações o imperialismo da retórica, as arrogantes interjeições nos discursos, os comandos mudos e irrefutáveis das austeras instituições, permearam nossas vidas e cotidiano.

Obedecer, obedecer, obedecer. Repetir imitar, igualar-se a mitos ou pseudomitos políticos e ou televisivos?

Desde quando afinal, passamos a decidir que seríamos comandados por nós  próprios, (ou  nos iludirmos quanto a esta conquista?)

Experimentarmos , ainda que fugazmente, as pseudo asas da liberdade?

Não. Somos vigiados. Por olhos invisíveis sempre.

O Google e afins sabem tudo de nós, dos nossos avatares transformistas, nossas tímidas e eróticas experimentações sexuais, muitas vezes, trazendo-nos via web não apenas os dois velhos e conhecidos braços carnais que nos constituem como seres.

Mas muito mais:  expansões tentaculares arrojadas como polvos, pois é assim que furtivamente nos sentimos; ou então  imponentes donos de uma ubiqüidade pós-deificada: estarmos simultaneamente em inúmeros locais, regiões, Continentes…

Sim, a web nos trouxe este aparente (ou real e simulado? ) empoderamento.

Afinal,  somos andróides, ciborgues,  demiurgos, metamorfoses protéticas, mas também humanos?

Inovação é  um tema belo, vasto e repleto de mosaicos.

Hoje, sobretudo, ratificamos a extensão dessa diversidade de papéis e personas,  quando engendramos as nossas histórias, os vínculos em nossos storytellings, coligados a  plataformas midiáticas, on ou off line, plenas de cibridismo.

Agimos deste modo, como, aliás,  se nós e nosso mundo fossemos mesmo um verdadeiro arquipélago repleto de cenários/ roteiros/ tramas  – em cada uma das ilhotas que nos compõem.

Em suma: imersos em uma transmidiatização ampla. Geral. E irrestrita.

Metaforizando:  eu como pessoa-mídia, conto uma história para alguém. Pois bem, esta oralidade é um áudio que, para quem o escuta, o recebe em outra “plataforma midiática”, que é o seu inconsciente, ou subconsciente.

Então nasce a pergunta: como este alguém “vê”, imagina e cria  fantasias a partir das histórias que eu conto?

Se esta criatura se tratar, por exemplo, de uma criança, amanhã ela  poderá estar desenhando histórias em quadrinhos, baseadas nas personagens que mais a impressionaram , enquanto ouvia atentamente  as aventuras contadas por mim.

Talvez a criança se empolgue e decida  tirar fotos, que, visualmente, ressaltem aspectos desta história, a qual  começa a se espalhar pelos ambientes em torno de seu cotidiano.

Ou, quem sabe,  até o menininho curioso  use “palitos de fósforos” para prosseguir com a criação de  seu “roteiro fantástico” .

Decididamente somos mosaicos.

 Nossa vida e interesses se espalham e se reinventam em mil formatos, sampleados com mídias impressas, fusionados em  mashups

com  mídias sociais, whatever.

Dizia-se que Einstein ao fazer sua caminhada diária, jamais repetia seus trajetos. Tédio? Mesmice?

Não, essa repetitividade que se enxerga num cotidiano tomado por bocejos,  abraça e se adere a certas pessoas-zumbi, ou criaturas-rough que se subjazem ao medo de ousar,  ser e agir processualmente.

Atuar gerundivamente. Como um verbo em contínuo movimento, que carrega o passado, o futuro e o presente juntos, em suas conotações perambulantes.

 Break the rules? Never! Think outside the Box? Are you crazy?!

Dá medo inovar: no beijo, nas caricias, na relação com nossos amigos,  gestores, nossa família, nossos professores e alunos.

Dá medo  se ressensibilizar. Exatamente quando vivemos o brand entertainment , a hora do lúdico, o desejo imanente de nos acreditarmos “Forever Young”!

”É… morrer, é fato,  virou brega hoje.

A senescência  acomodou-se no modorrento   mofo social.

Forever young. Jovens decrépitos. Vetustos  jovens.

Viva os álbuns de figurinhas da Copa. Colecionadas avidamente por papais aficionados em seu estupor juvenil!

Os Nintendo wii, vorazmente ultrapassados pelos Kinetics da vida, que nos encapsulam em pré-semi-realidades  anestésicas.

As menininhas de 12 anos querendo aumentar os seios, usar perfumes adultos e magnéticos, quando o brincar também virou brega e foi deixado de lado. Isso , definitivamente,   não é inovar. É morrer para o novo.

Sustentabilidade, ecossistema,  preservação do planeta estão na ordem do dia. Até porque muito em breve poderemos ter diante de nossos olhos a triste cena de um urso polar sentado apaticamente sobre o último picolé de gelo do universo.

Mas inovar é mais. Muito mais que isso.

É ousar ser alguém melhor, menos mesquinho, egóico, autista-social-digital, atrelado firmemente aos seus ipods,  ipads,  iphones,

 Kindles, blackberries para estar up to date…

Inovar é conseguir manter a corporeidade e o afeto, apesar dos tempos hipercibernéticos atuais.

“Que tal gerarmos um eu – coletivo, que nasça e renasça de múltiplos úteros, mas que não seja acomodaticiamente hermafrodita, porque aí se diluiriam os desafios próprios dos contrastes ‘Ying e Yang”?

E então? Teremos coragem de assumir esta mudança incessante,  agregando a cada momento dos nossos dias valores novos ao nosso branding humano, o personal branding equity?

 Graça Taguti – Quase neurocientista pela UFRJ, jornalista, publicitária, professora e palestrante. Mestre em Novas Tecnologias da Comunicação  e Cultura , pela UERJ. Amante do novo, da aceleração e  dos sujeitos mutantes.

 

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