Um cross media chamado ARG

ARG é a sigla de Alternate Reality Game (jogo de realidade alternativa em tradução livre). Mas o que seria isso? É um advergame? Ou um RPG?
Não, o ARG para ter esse status não é uma coisa nem outra, mas podendo ser as duas. Compliquei? Explico. O ARG é um jogo de narrativas (como uma espécie de novela) em que se cria um contexto que permite aos jogadores fazerem parte da ficção sem precisar criar uma personagem, ele participa como ele mesmo e é parte fundamental da história.

É criada uma ficção que entra em seu cotidiano por diversas formas e por mídias diversas promovendo uma interatividade que não é conseguida de nenhuma outra forma em outros cross-medias. E ao mesmo tempo trabalha a marca, pois ela é o mote dessa narrativa.

O envolvimento dos jogadores se dá por meio do intercâmbio história/personagens, que é feito, por exemplo, através de e-mails, sites, blogs, telefonemas, cartas, interações ao vivo nos chamados “lives” etc. Qualquer mídia pode ser usada numa estratégia dessas desde que devidamente contextualizada com a narrativa do jogo para ampliar a catarse e a mímesis promovida pelo jogo.

O interessante é que nesse tipo de jogo o contato com a marca é intenso, ainda que mais velado por se tratar de uma história. Não se faz necessária a repetição ou a evidenciação da empresa, inclusive porque isso iria contra o lema do jogo que é manter o TINAG (sigla para This is not a game!, que livremente traduzido seria, Isso não é um jogo!) e exceder esse limite de exposição da marca, implicaria em perda na parte ficcional da estratégia, o que é fundamental no ARG.
Essa interação promove um vínculo emocional com a marca, pois o produto ou a empresa ficam eternizados na vida nos jogadores, uma vez que fazem parte de suas experiências de vida, tornam-se parte dela. O case do ARG “Zona incerta” demonstra muito bem isso.

O ARG “Zona Incerta” é, pra mim, o case de maior sucesso no Brasil, foi fruto de uma parceria entre Revista Superinteressante (Núcleo Jovem Abril – equipe da qual fiz parte nessa época como freelancer) e Guaraná Antárctica, cujo enredo se tratava do sequestro do cientista “Miro Bittencourt” para que ele revelasse a “fórmula secreta do Guaraná Antárctica”. A função dos jogadores era impedir que isso acontecesse e o sucesso do ARG foi tamanho que repercutiu em jornais no exterior, políticos se pronunciaram no senado (sem imaginar que se tratava de um jogo), 7,6 milhões de leitores tiveram acesso aos anúncios e o hotsite teve 360 mil acessos únicos dando 50 milhões de pageviews com 70 mil jogadores registrados. O encerramento do jogo aconteceu na Casa das Caldeiras em São Paulo com os jogadores na festa gritando “Ninguém faz igual!” – slogan do Guaraná Antárctica na época.
São resultados incríveis (se compararmos com outras propostas de cross-medias) para uma estratégia tão nova no Brasil e desconhecida para muitos.

Em outros países já é bastante comum essa experiência de ARG, aqui ainda estamos engatinhando.
Resta a nós (puppet masters¹, puzzle makers², jogadores e afins) esperar que as empresas tenham coragem de se arriscar nessas novas veredas para termos novidades dentro de uma publicidade que nos oferece milhões de oportunidades de trabalho. Talvez seja essa uma das possibilidades de publicidade 2.0, cross-medias inteligentes, interativos e que gerem mudanças tanto na vida de quem joga, quanto na empresa que aposta na ideia.

¹ – criador do ARG que acompanha o desenrolar da ação cross-media.
² – criador dos desafios que acontecem nas diversas mídias utilizadas no ARG.

Para saber mais:

Wikipedia
ARGBrasil

Nannda Silvestre, 29, Mestre em Letras, Ex-freelancer do núcleo Jovem da Ed. Abril, atual pseudo-jornalista do trainee da Ambev, adoradora de ARGs, professora e aprendiz de quase tudo.
@nanndasilvestre

fernandasilvestre@gmail.com

13 Comentários

  • Belle 11 / 03 / 2011

    Melhor explicação ever!

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    • marcia 12 / 03 / 2011

      Olá Belle,

      Obrigada pelo comentário. Ficamos felizes que o texto tenha atingido o obejtivo de informar.
      Abraços

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  • Victor Vicentni 19 / 03 / 2011

    Muito legal o texto, não tinha noção sobre esse tipo de mídia tão sutil, eficiente e eficaz.
    O ARG fazer o consumidor movimentar-se, entra na rotina de uma forma muito receptiva, um jogo, não apenas sentado na frente de um aparelho vendo ou ouvindo informações do produto/ empresa.
    Espero que esse bebê pare de engatinhar logo aqui no Brasil.

    Responder

    • marcia 19 / 03 / 2011

      Victor,

      É uma ação muito inteligente, que deve ser criativa e despertar o interesse do usuário para que tenha um bom resultado.
      E sim, um bebê.. uma pena que poucas empresas/marcas façam isso por aqui.
      Obrigada por comentar.
      Abraços

      Responder

  • Heitor 22 / 03 / 2011

    Quanto será que custou esse ARG para o Guaraná?

    Responder

    • Fernanda Silvestre 22 / 03 / 2011

      Olá Heitor!

      Esses dados eu não tive contato, mas sei que éramos uma equipe de umas 20 pessoas no máximo (de várias áreas).
      Algumas coisas, por serem da própria Ambev, ajudaram na logística (uma vez que o ARG rolou no Brasil todo e haviam fragmentos espalhados por todo o território) e não custaram nada. Te dou um exemplo: existiu uma garrafa de guaraná antiga (que era onde continham os pedaços de mapas que precisavam ser achados para completar o mapa que levaria Miro Bittencourt – o cientista desaparecido – ao esconderijo dos vilões) no Pinguim de Ribeirão Preto. Por se tratar de um estabelecimento relacionado a Ambev não houve custo adicional, uma ligação para o bar explicando sobre o que se tratava e o pacote enviado junto com o caminhão que abastece a Pinguim e pronto!
      Um ARG muito bem pensado, pode vir a ter poucos gastos.
      Acho que os gastos maiores foram com publicidade (que foram feitos com cartazes lambe-lambe, anúncios na revista Superinteressante (responsável pelo ARG), grafites, faixas – o que é bem barato), vídeos, os lives (atores, filmagem etc) e os hotsites, sendo que alguns deles eram blogs no wordpress grátis.

      Volto a dizer: um ARG bem pensado pode ser bastante barato em relação a outros cross-medias e tem um efeito muito mais legal!

      Tudo depende da abrangência, da formação da equipe, do projeto (importantíssimo) e dos recursos.

      Já vi inclusive projetos amadores com boas ideias. O que faltou foi realmente dinheiro para prosseguir com eles. Eu tenho algumas coisas na gaveta… quem sabe não as tiro em breve? #oremos

      E qualquer outra dúvida que tiver, não hesite em nos enviar!

      Gratíssima!

      Nannda

      Responder

  • Fernanda Silvestre 22 / 03 / 2011

    Victor…

    Eu espero também que deixemos em breve, mas só com divulgação é que poderemos angariar interesses de agências, empresas e afins.
    Por isso esse post, para dar mais visibilidade a essa estratégia, ainda desconhecida no Brasil pela maioria das pessoas que trabalham com cross-medias e afins.

    Espero que tenha sido útil!

    Obrigada pelo comentário!

    Nannda

    Responder

  • Soso 25 / 03 / 2011

    Nannda,parabéns!Me sinto orgulhosa de ser sua amiga e ter participado desse Arg Zona incerta,e com certeza,rsrsr foi um dos melhores em roteiro,execução e em todo o mais que um belo Arg necessita.È exemplo.

    Responder

    • Fernanda Silvestre 26 / 03 / 2011

      Ah, muito obrigada Sô

      E ainda estamos a espera de outro, não é mesmo???

      Vamos fazer uma campanha: Queremos o Zona Incerta II!!!

      E estamos próximo do Dia do ARG #oremos!

      Abraços!

      Nannda

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  • Rei Azul 28 / 04 / 2012

    Melhor explicacao de todos os tempos, sem duvida!

    Entao que nunca chegue ao grande publico 🙂

    Responder

  • Luciano Bueno 23 / 01 / 2016

    Encontrei uma page com muitas informações sobre args: facebook.com/argsbr

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  • Luciano Bueno 16 / 03 / 2017

    A algum tempo reúno material sobre ARGs. Reuni bastante material em cacebook.com/argsbr . Eu cheguei a por online uma proposta de ARG amador a alguns anos e que até hoje funciona. Gostaria de construir algum projeto em conjunto. Se alguém tiver interesse: lucianodbueno@gmail.com

    Responder


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